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BRAT

Atualizado: 26 de out. de 2024


“I went my own way and I made it”. É assim que começa o sexto álbum da artista britânica Charli xcx, lançado em 7 de junho, e que até o presente momento, é um dos mais comentados e aclamados do ano.



O alter ego de party girl vem desde o começo de sua carreira, em 2008, e desde então Charli é sinônimo de “cool girl”. O álbum, sob um contexto geral, não se submete a nenhuma regra moral, e a artista expõe seus pensamentos quase como num fluxo de consciência a la Virginia Wolf. Pendendo tanto para pensamentos megalomaníacos de autoestima (360, Von dutch) quanto para a angústia de sentir-se uma farsa de si mesma (Sympathy is a knife, I might say something stupid, Girl, so confusing), capturando a dualidade de ser jovem, mas nem tanto.


Charli é contracultura demais para ser considerada do pop mainstream, mas muito reconhecida para ser indie. E justamente essa afirmação faz com que as letras do álbum ganhem tanta poesia e sentimento, já que não se encaixar é difícil para qualquer um. Mas, ao expor suas vulnerabilidades ao mesmo tempo que se aceita como algo maior que ela mesma, Charli conseguiu o feito de ir de vez para o mainstream com um trabalho que expressa justamente esse seu incomodo de não pertencimento.


Virais no TikTok como a dança da música “Apple” e o sucesso irretocável de “Girl, so confusing featuring lorde” pavimentaram esse resultado para a satisfação do “homem médio comum”. Parte da gravadora independente, a PC Music, Brat alcança novos patamares junto ao hyperpop, e serve como um motor para experimentações artísticas e inspirações como Sophie, A. G. Cook, e Hannah Diamond.


O álbum de crises e inconstâncias transfigura-se como um registro sonoro das raves ilegais que Charli se apresentava (com seus pais, inclusive) aos 14 anos, passando por diferentes eras e construções líricas de variados momentos de sua carreira. Não existe assepsia nem meios termos, é visceral em sua abordagem, e vai na contramão dos palatáveis enlatados musicais.

 

“Esse álbum é muito direto. Cansei da ideia de metáfora, de lirismo floreado e de não dizer exatamente o que penso, como diria a um amigo em uma mensagem de texto“, disse à Billboard.

 



Capa

 

Num primeiro momento, todos odiaram.

 

Cor verde-limão (agora verde brat), fonte Arial centralizada, e só. A capa sofreu duras críticas – Por que não colocar o rosto da artista? Por que tão comum? (algo similar aconteceu com George Michael nos anos 90 com seu álbum "Listen Without Prejudice").


Na verdade, seu processo é bem mais meticuloso do que as pessoas deram crédito.

 

Uma ironia do conceito de banalidade e básico, o design é - assim como a música pop costuma ser vista - direto e simples, mas com um revés que a faz se destacar: a escolha da cor vibrante e única, e a fonte borrada e mais comum impossível. Assim como a artista, a arte não tem medo de ser considerada “vazia”, mas busca algo subversivo em sua composição.


Para afirmar de vez seu título de icônica, o site “bratgenerator.com foi disponibilizado como uma plataforma online em que todos pudessem aplicar os elementos de design 'desleixados' característicos para criar suas capas de álbum personalizadas (algo semelhante ocorreu em 2023, com o filme blockbuster “Barbie” e o “Barbie selfie generator”). A estratégia de conteúdo interativo transformou fãs em proprietários, e os conectou fortemente com o álbum.


 


 

NYC como tela e TikTok como TV

Em 2 de maio, Charlie iniciou uma live no TikTok com uma parede pintada de verde-limão, intitulada "Brat wall", e depois de um tempo twittou o endereço da The Lot Radio, a localização da parede. Instantaneamente, fãs começaram a ir ao local, tirar fotos, gravar TikToks e, mais uma vez, o marketing orgânico foi atingido. Para potencializar essa experiência, Charli fez uma performance surpresa na Brat wall, e assim que anunciou o remix “Brat and it’s the same but there’s three more songs so it’s not”, a estratégia foi refeita, mas agora com o público já muito engajado e acompanhando de perto o processo – e produzindo muito conteúdo sobre.


 

O sucesso foi feito a partir da tiktoker Kelley Heyer, que criou uma dança para a música, e logo todos dançavam a letra I guess the apple don't fall far from the tree / 'Cause I've been looking at you so long / Now I only see me / I wanna throw the apple into the sky / Feels like you never understand me / So I just wanna drive.


O marketing de influência serviu diretamente as estratégias de grande alcance do álbum, sendo o TiktTok uma de suas maiores fontes de meme, danças virais, e análises da estética messy girl, das letras que falam sobre outros possíveis artistas etc.

 



Estética verde brat e seu impacto cultural

 


Uma rápida pesquisa no Pinterest (lar das estéticas), e o moodboard do verão das pirralhas arruaceiras se clarifica perante aos olhos. A autenticidade ganha da perfeição, e o verde-limão é ofuscado veementemente no vocabulário, e o verde brat toma forma. A importância de trazer para perto seu público – e que podemos ver aqui – é que tudo ganha novos sentidos através de uma semiótica muito bem definida.


O movimento musical metamorfoseia-se em cultural (influenciando a campanha para presidência dos Estados Unidos da América -- Kamala é brat, aparentemente), e da Consciência do ouvinte comum em reconhecer e Interessar-se por Charli, o Desejo crescente de fazer parte de algo tão cool e original fez com que tanto fãs quanto ouvintes esporádicos tomassem a Ação de entender melhor esse projeto e suas nuances. Os que deram sua Lealdade a mais nova diva pop (parte da tríade do “pop não morreu” junto a Sabrina Carpenter e Chappell Roan), tornaram-se verdadeiros defensores da marca brat e, e no mundo musical, quem tem Advogados, tem tudo.



A poesia honesta de “Girl, so confusing featuring lorde”

A indústria as fez rivais, mas num ato corajoso, Charli descarrega suas emoções de inveja, raiva e descontentamento na décima música do álbum, e rapidamente todos descobrem para quem seria a destinatária – a neozelandesa taciturna Lorde, ícone cultural dos anos 2010, que foi lançada a fama mundial e avassaladora ao mesmo tempo que Charli se estabelecia na “classe média do pop” (divas supremas para sua fanbase, medianas para o resto) e deixa isso claro nos versos de "I might say something stupid" e "Rewind":

(...)

I'm famous but not quite

But I'm perfect for the background

One foot in a normal life

I go so cold, I go so cold

And I don't know if I belong here anymore, I


//


(...)

I used to never think about Billboard

But now I've started thinkin' again

Wonderin' 'bout whether I think I deserve commercial success

It's runnin' through my mind

Sometimes I really think it would be cool to rewind


Os equívocos de duas garotas, alimentadas por uma indústria que sobrevive de rivalidade, garantiu – em sua versão original – uma música com diversas hipóteses, das mais compreensivas as mais duras e amargas. Já no remix, ganha uma força descomunal quando Charli (mais uma vez corajosa) convida Lorde, a inspiração para a canção, para colaborar e “resolver isso no remix”. Genial do jeito que só ela consegue, os versos de Lorde conseguem ser avassaladores, tristes, e que agora com o outro lado da história, fazem os versos de Charli muito mais irracionais e infantis. Justamente como a maioria desses casos de fato são.


Despir-se da vergonha e encarar de frente sentimentos de inveja e rancor fazem essa música ser a melhor produção de Charli até o momento, e de muitas maneiras, reafirma a imensa vitória de sua intuição criativa.




Brat and it's the same but there's three more songs so it's not + Brat and It's Completely Different but Also Still Brat
 

Com lançamentos no dia 10 d Junho e 11 de Outubro, respectivamente, a versão deluxe e remix do maior sucesso comercial e de crítica de Charli xcx exteriorizam-se como uma ressaca pós-festa arrebatadora, daquelas que trazem novos problemas para antigas discussões.


Charli conquistou o que queria, fama global e sucesso intenso. Seus hits eram conhecidos, mas não enchiam estádios nem vendiam ingressos, estavam no eterno “quase lá” a mais de dez anos (“boom clap” e “I love it” são hits dos anos 2010) e seu momento de virar cometa e as pessoas questionarem se era uma “artista plantada pela indústria” não havia chego. Agora chegou.


Questionamentos como “e agora que atingi meu máximo?”, “o que fazer a seguir” são expostos em ambos os álbuns, e traz novas sonoridades e características com participações de artistas como Julian Casablancas, Robyn, Caroline Polachek, Kesha, e a SWEAT tour –parceria com Troye Sivan.



BRAT SUMMER (it’s over)

 

Acabou oficialmente, mas essa era de Charli xcx já entra para a história como um dos maiores atos pop da década de 20, e seu legado já pode ser visto instantaneamente (C,XOXO).

 

Brat dá a certeza ao público de que é um dos melhores álbuns do ano, e sua longevidade e poder de manter o interesse do público com o “feeling brat” são impulsionados por um conjunto de fatores: atitude de desapego, ao passo que sente-se tudo muito intensamente, é corajoso e confiante, sente inveja e remorso, nostalgia e luto, tudo enquanto vai de festa em festa procurando encontrar-se nesse redemoinho de sentimentos.

 


















Referências Bibliográficas



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