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Mulheres são mais do que musas

Atualizado: 30 de jul. de 2024



Por que mulheres são sempre as que devem ser admiradas? Por que o comum é ter o ímpeto é o de ser observada, de ser uma voyeur de si mesma, de ser musa ao invés de artista? Esse texto busca refletir sobre como mulheres são subjugadas a crer que a possibilidade de ser a mente pensante por trás de sua vida é inexistente, e em contrapartida, citar sete exemplos de mulheres que desafiaram com maestria esse pensamento retrógrado.


Artistas femininas são várias, cada qual com seu talento, personalidade e voz própria. Pense em Sônia Braga, Agnès Varda, Frida Kahlo, Elza Soares, e note como todas utilizavam/utilizam da arte não apenas como forma de expressão e trabalho, mas como uma forma de manipular o tempo, tornando-as infinitas e atemporais.


A grande questão é que a história não costuma contar as histórias com voz de mulher, e encontrar na cultura popular artistas ressoantes com nossas vivências pode ser bastante complicado. Tomemos como exemplo Eva "a pecadora original, a traiçoeira mulher que enganou Adão, um homem simples e puro", segundo a autora Martha Robles, em seu livro Mulheres, Mitos e Deusas

Desejo e remorso, gozo carnal, imaginação fundadora e força libertadora: ela é a mulher, a deusa, a mãe e a amante, a abnegada parideira de homens que atravessa os séculos trazendo o símbolo da queda; mas trazendo também a consciência eletiva de quem se atreveu a desvelar o mistério mais elevado: o da sabedoria que estava entranhada na árvore proibida, imaginado por Deus para que os homens sonhassem com sua própria divindade, mesmo a preço de aniquilar sua suposta semelhança com o Criador. Eva é, em síntese, o talento culpado que se arrepende de sua escolha racional, um pensamento gerador de contradições e a primeira tentativa de enriquecer o gozo herdado com o sonho da divindade, consumada no ato da criação.
Desejo e remorso, gozo carnal, imaginação fundadora e força libertadora: ela é a mulher, a deusa, a mãe e a amante, a abnegada parideira de homens que atravessa os séculos trazendo o símbolo da queda; mas trazendo também a consciência eletiva de quem se atreveu a desvelar o mistério mais elevado: o da sabedoria que estava entranhada na árvore proibida, imaginado por Deus para que os homens sonhassem com sua própria divindade, mesmo a preço de aniquilar sua suposta semelhança com o Criador. Eva é, em síntese, o talento culpado que se arrepende de sua escolha racional, um pensamento gerador de contradições e a primeira tentativa de enriquecer o gozo herdado com o sonho da divindade, consumada no ato da criação.

É possível fazer uma colagem que sumariza muito bem esse tipo de pensamento: mesmo curiosas e prontas para desbravar o mundo e transformá-lo em sua ostra, mulheres são reduzidas a objetos de inspiração passiva, limitadas a serem observadas e sem nunca serem sujeitos ativos. Esse pensamento pode parecer depressivo e sem esperança, mas pare e pense, quantos livros escrito por mulheres você leu esse ano? ou quantas pinturas você conhece que foram criadas por mulheres? ou até mesmo quantos filmes dirigidos por mulheres você já assistiu no cinema?


A arte através dos olhos feminino sempre existiu e existirá depois de partirmos, mas a questão que fica é serão elas reconhecidas e apreciadas?


As artes liberais clássicas foram regentes do estilo educacional da antiguidade greco-romana  e, assim como o nome bem pontua, tinha a liberdade como essência. Além de representar o belo, a palavra ‘estética’ também era sinônimo de sensibilidade, sensação e percepção.


A partir desse ponto podemos determinar a construção de uma cultura popular, coletiva e que representa os costumes e tradição de um povo, não podendo tirar-lhes isso. Seguindo esse conceito, as artes foram categorizadas, sendo elas: a pintura, a escultura, a música, a literatura, a dança, a arquitetura e o cinema. Junto a esse conhecimento, porque não (re)conhecer a potência da força feminina no âmbito das artes? A vida, afinal de contas, é exposição.


Por esse motivo, listo aqui sete artistas brasileiras que transformaram e revolucionaram cada técnica. Lembrando que a escolha de serem apenas mulheres a compor esse repertório é totalmente intencional e parcial.






Pintura: Tarsila do Amaral foi uma das principais referências quando se trata da arte modernista brasileira.


Lembrada até hoje por obras como 'Abaporu' e 'Operários', também foi uma das mentes por trás do Movimento Antropofágico, além de tê-lo inaugurado no país. A virginiana sofredora do contraditório complexo de “pobre menina rica” ganha força quando se encontra no movimento modernista, e torna-se precursora do movimento antropofagista “Tupi, or not tupi that is the question”, ideia de misturar, agrupar e dilacerar a cultura europeia junto a brasileira, transformando em algo inteiramente nosso (vide Abaporu, que de acordo com a língua tupi guarani, significa o homem que come).





Escultura: Maria Bonomi é uma escultora ítalo-brasileira condecorada.


Ao criar peças como 'Réquiem para os Tombados da Covid-19' e 'Painel Etnias', um conjunto de esculturas em forma de painéis em alumínio, argila e bronze. A canceriana é condecorada a maior honraria do Estado de São Paulo, a Ordem do Ipiranga.


Amante das esculturas em relevos, pois “Ele dura para sempre”, a artista vive em São Paulo e defende que há salvação para a cidade de concreto, e projetos coletivos artísticos são parte essencial dessa restauração. Seu lema: “não temos mais plantas (...) podemos ter relevos, sombras, curvas, imagens, cores (...) É uma necessidade, é um dever, e é um direito.”.



Música: Rita Lee Jones é uma cantora, compositora e escritora brasileira.


Pai norte-americano e mãe italiana, a capricorniana era a caçula de três irmãs e, obviamente, a mais sapeca. Conhecida popularmente como a ‘Rainha do Rock Nacional’, iniciou seu trabalho artístico como integrante da banda “Os Mutantes”, além de participar do movimento cultural tropicalista (junto com Gilberto Gil, Tom Zé e Gal Costa) e ser uma das primeiras a utilizar a guitarra elétrica em suas composições. Seus ultra sucessos atemporais ‘Doce Vampiro’, ‘Cor de Rosa Choque’, ‘Baila Comigo’ a tornaram uma das cantoras mais expressivas de sua época, mas não se limitando a uma geração apenas.


Sempre de forma irônica e inteligente, suas músicas questionam convenções sociais, o papel da mulher e o próprio amor, o último caso sendo o mais conhecido por sua parceria de décadas com o musicista Roberto de Carvalho, com quem compartilhou sua vida e sua arte. Seu único defeito era não ter medo de fazer o que gosta, e essa filosofia continua presente, seja através de suas autobiografias, na praça do parque Ibirapuera (que agora tem seu nome), na peça musical em cartaz (Rita Lee - Uma autobiografia musical), e principalmente, em suas canções. 



Literatura: Lélia Gonzalez foi uma importante intelectual e ativista brasileira pelo movimento negro, feminista e pela luta de classes.


Nascida em Belo Horizonte, a escritora surgiu na literatura como tradutora de livros franceses de filosofia e logo migrou para os ensaios, com foco nas temáticas do movimento negro, da mulher e das classes sociais. A aquariana foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), e uma das pioneiras do pensamento de que racismo e sexismo são interligados à sociedade brasileira.


Feminista convicta, Gonzalez iniciou seus estudos acadêmicos na década de 1950, e formou-se pela Universidade do Rio de Janeiro, com licenciado em Geografia e História. Na década de 1980, Lélia tornou-se a primeira mulher negra representante do movimento negro no país, e conheceu lideranças internacionais, como a ativista e escritora Angela Davis. Seu livro, Lugar de Negro (1982) é símbolo da vanguarda filosófica antirracista e das dinâmicas de classe do Brasil. 




Dança: Mercedes Baptista foi uma das mais revolucionárias bailarinas e coreógrafas do país.


A taurina nasceu no interior do Rio de Janeiro, Mercedes foi a primeira bailarina negra a integrar o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e apresentou seu talento ao crème de lá crème da elite carioca abrindo portas pelo caminho. Após uma temporada nos Estados Unidos, Baptista montou o grupo de dança “Ballet Folclórico Mercedes Baptisita”, e fundou o Balé e Dança Afro, que tinha características tanto clássicas quanto do Candomblé.


Sua dança representava um ato político e de resistência, deliberadamente colocando destaque na religião de matriz africana que tanto sofre preconceito pela sociedade brasileira, seja na época ou atualmente. Também coreografou a ala de passo marcada para a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, que se tornou campeã com o enredo “Xica da Silva”.



Arquitetura: Bo Bardi foi uma das mais importantes arquitetas do país.


Participante do movimento modernista, foi a idealizadora e responsável por importantes patrimônios paulistas, como o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o centro cultural e de lazer Sesc Pompeia. A sagitariana iniciou seus trabalhos em São Paulo, na década de 1960, com a construção do MASP, sendo três andares, incluindo um subterrâneo.


A técnica de exibir as artes presentes nas exposições com cavaletes de vidro, de forma que todos os ângulos possam ser admirados e visualizados. Outro projeto arquitetônico e artístico de Bo Bardi é sua própria casa, apelidado de “A casa de Vidro”. Antes um descampado, a construção da residência foi moldada por ideais que unem aspectos da natureza, com arborização similar a da Mata Atlântica. 



Cinema: Adélia Sampaio é uma das mais importantes cineastas do país.


A primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem na América Latina, além de roteirista e produtora de diversos projetos. Sobre a paixão pelo cinema, Sampaio diz que “aquela tela que se ilumina e o som que entra, aí tudo invade você”. Sua mãe a inspirou de várias maneiras, e a ensinou a perseverança e resiliência através do lema “Para cima do medo, coragem!”.


A cineasta participou do movimento Cinema Novo, que durante as décadas de 1960 e 1970 foi importantíssimo para a sétima arte nacional, uma vez que evidenciava as desigualdades raciais e sociais do país. Adélia buscava sempre trazer temas que refletissem a época em que vivia, como é o caso do filme 'Amor Maldito', que colocava em foco o relacionamento amoroso de duas mulheres. Esse filme repercutiu imensamente, tanto positivamente pela representação de amor LGBT+, quanto negativamente pelos conservadores. Sua fé no ser humano e no amor a guiou por toda sua vida profissional, e atualmente Adélia tem um canal no Youtube que disponibiliza toda sua filmografia. 



Bibliography


ARQIO - ARQUITETURA E MEIO AMBIENTE,  A casa de vidro de Lina Bo Bardi. Disponível em:  https://www.youtube.com/watch?v=CM6WVup0WMQ 


ASTRID FONTENELLE, MULHERES ADMIRÁVEIS #13 | MERCEDES BAPTISTA. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-NKvrlLniKs   


BRASIL DE FATO, A história e o legado de Lélia Gonzalez. Disponível em:  https://www.youtube.com/watch?v=fv5_xRpHV2s


ITAÚ CULTURAL, Adélia Sampaio – série Cada voz (2022). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oBkal3OleTo 


LEE, Rita. Rita Lee - uma autobiografia. 2016


MONICA MESQUITA, Mercedes Baptista - Entre o Clássico e o Popular. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FRq155c5gos 


ROBLES, MARTHA. MULHERES, MITOS E DEUSAS - o feminino através dos tempos. 1996


VIVIEUVI, Lina Bo Bardi e suas ideias para um museu acessível e plural #VIVIEUVI. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pdu5XAp1WF4 


VIVIEUVI, TARSILA DO AMARAL - 50 FATOS #VIVIEUVI. Disponível em: https://youtu.be/0oL8_Yl48qw?si=HIN7XGG2sQ2yRn7g 





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