top of page

cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

Atualizado: 11 de jul. de 2024




Frankenstein e Bella Baxter carregam semelhantes concepções e origem, mas o que acontece quando dois seres da ficção científica que não vieram, e não voltarão ao pó, colidem?

Quando olhava ao redor, não via ou ouvia falar de ninguém como eu. Era eu então um monstro, uma mácula sobre a terra, da qual todos os homens fugiam e a quem todos repudiavam?” [p.140]

E assim pensa o ser humanoide e costurado Frankenstein, que projetado pela mente mesquinha e egoica de Victor Frankenstein, perambula solitário e questiona sua existência após o abandono de seu “pai”, por assim dizer. Clássico da literatura mundial e razão pela qual Mary Shelley, a autora da obra, é a mãe da ficção científica, o livro originário do século XIX surgiu em uma noite tempestuosa no castelo de Lorde Byron. 


A introdução do livro (edição da capa ao lado) inicia-se com um texto honesto e reflexivo da escritora, que aponta que seu marido e lorde Byron passavam horas conversando, inclusive sobre assuntos que seriam a base para sua história: darwinismo, galvanismo e artes profanas. Esse fato nos faz ter um bom contexto sobre as origens dos pensamentos de Shelley, que resultariam no icônico monstro de figura desproporcional, sem jeito e sem qualquer apoio, fadado a viver uma sobrevida de miséria, tanto material, quanto afetiva e coletiva.




“Eu me aventurei e não encontrei nada além de açúcar e violência.”

Pobres Criaturas (dir: Yorgos Lanthimos, 2023) acompanha a história de uma jovem cativante, ingênua, curiosa, desastrada, corajosa e linda - e instiga o público a olhar com atenção um século XIX pautado pela bizarrice e excentricidade.


O filme é originário do livro homônimo, de 1992, e conta a história de Bella Baxter, que após seu antigo eu (chamada de Victoria, que estava grávida) se suicidar ao pular de uma ponte, é salva pelo Dr. Godwin, um cientista a la Frankenstein (tanto o criador quanto a criatura), que implanta o cérebro do feto no corpo já desenvolvido da mãe. Apesar de ser mãe de sua filha e filha de sua mãe, esse ser - visualmente comum - converge entre duas, e tem que se adaptar à condição humana e a sua circunstância totalmente singular.



Ambas histórias sugerem a criação da vida por meios não naturais, além da relação criador&criatura, e as consequências de brincar de Deus. Frankenstein e sua desesperança e aceitação da perversidade humana reflete como a criatura nunca teve quaisquer chances de ter uma vida minimamente proveitosa. Victor Frankenstein, o cientista e verdadeiro monstro da história, preocupa-se apenas no “como fazer”, e ignora por completo o “porquê fazer”.


Existe, inclusive, algo poético ao perceber que a criatura que Victor tanto despreza carrega seu sobrenome por toda a eternidade, e mesmo que veementemente tenha tentado se desvencilhar de sua criação, todos sempre a conhecerão pelo seu nome. 


Já o criador de Bella, Dr. Godwin, não possui todos os traços perversos de Victor, apesar de sua excentricidade ser questionável e seus motivos, incertos. A começar por seu nome, com dois agradáveis pontos a serem frisados:

  • Godwin é o nome do pai de Mary Shelley, e referência maior à sua obra não poderia ser feita. Filósofo e intelectual, a educou com muito afinco e, diferentemente do que pensava a época, incentivou seus estudos e pensamento crítico;

  • Seu apelido, God, não poderia ser mais claro: quem não, senão ele, para Bella  chamar de Deus?


O doutor é apegado à Bella, e mesmo que a contragosto, entende que sua criatura responde por si mesma, e suas vontades próprias sobressairão. Godwin é criador, mas também é pai e uma boa figura masculina, que representa cuidado e amor. 


O ponto do criador em relação a criatura é o que primeiro nos faz entender que as semelhanças entre essas duas personagens - F e B - estão em seu princípio, mas não no fim. Ao passo que o criador do século XIX é covarde e rejeita suas obrigações para com sua criatura, o criador do século XX enfrenta os desafios de educar sua criatura, mesmo que a entenda mais como experimento do que como um ser vivo que pensa.


O mito de Prometeu é fundamental para entendermos essa questão. O titã que cria a humanidade a partir do barro, e dá aos humanos o fogo, desafiando os deuses. Prometeu simboliza a inovação, a criação e a rebeldia contra a autoridade divina. Ele também representa os perigos e as responsabilidades da criação. Todas essas questões são centrais tanto na obra de Shelley quanto na de Gray. Que inovação maior senão a de criar a própria chama da vida? Que rebeldia maior senão a de desafiar a natureza e seu maior princípio?


Os meios pelos quais ambas as criaturas entenderão o processo de incluir-se na humanidade diferem-se muito, mas podemos nos questionar sobre identidade e pertencimento a partir de um ponto em comum: aparência. 



Bella Baxter e a semiótica do absurdo


Emma Stone dá vida a personagem Bella, que até o presente momento pode ser sua obra-prima como atriz. Daquelas que, daqui a muitos anos, o público recordará como seu mais primoroso trabalho. Dito isso, o cenário e estética do filme são também essenciais para a compreensão dessa criatura: a primeira cena do longa é totalmente azul (trocadilho para o inglês, blue significa tanto a cor quanto sentimento de melancolia), prenunciando seu suicídio, já que ela literalmente e metaforicamente está se afogando.



Ao decorrer do filme, há uma reimaginação da época do fim da era vitoriana, e através das cores, texturas e formas, pode-se determinar como está o psicológico e entendimento do mundo de Bella (sendo a designer Holly Waddington, agora oscarizada, a responsável pelo figurino). Quando criança, a personagem está sempre “vestida pela metade”, comum para os filhos que sempre estão em movimento. Além disso, o filme apresenta-se em preto e branco, simbolismo de que durante os primeiros meses, recém-nascidos não enxergam cores. Mas também espelha Bella, que está restrita ao microcosmos de sua casa e das pessoas que convive. Não há prazer, apenas o cotidiano sem graça em sua vida.

Com a chegada de sua adolescência, o longa entrega-se à rebeldia e aos prazeres diversos que o mundo pode oferecer. A jornada de Bella ganha cores otimistas com ar quase technicolor, sua vestimenta amplia-se, inclusive as mangas, que retratam como a personagem necessita de espaço. A moda é primordial para entendermos como ela é diferente dos demais. Por exemplo, na era vitoriana, o cabelo deveria estar sempre preso, para mostrar que a mulher é respeitável, sendo o contrário uma conotação sexual extrema - tema recorrente do filme -. 


Durante sua estadia em Lisboa, Bella é ativa e movimenta-se continuamente. O conjunto não convencional da blusa azul e short amarelo, que é uma roupa de baixo da época, permitem que a protagonista esteja confortável para viver sua aventura. Mas note que não é uma escolha fashion, nem declaração de sua personalidade, apenas que ela não sabe das convenções sociais, e não existe vergonha por sua parte. 


À medida que o filme avança, seu desenvolvimento é excepcionalmente rápido, a mente tentando igualar em nível recorde seu corpo. Consequentemente, sua avaliação e percepção do mundo são oscilantes e, ao embarcar no navio rumo à Alexandria, as cores antes vibrantes agora adotam tons mais amargos, suas roupas, apesar de ainda maximalistas, parecem mais sóbrias. O mesmo acontece ao chegar em Paris, com o cinza e o preto dominantes, e sua absorção à cerca da sociedade em que está inserida ganha formas mais parecidas com as da realidade. 

Ao adentrar na profissão mais antiga do mundo, Bella depara-se com a brutalidade, com o tédio, e o vazio existencial que sua aventura se transformou. Suas roupas agora são propositais, com tendências dark academia e filosóficas, e manifestam seu desejo de se tornar médica, seguindo os passos de seu criador.

Ao término de sua aventura e volta para a Inglaterra, a personagem ainda lida com fortes dilemas e percalços, como por exemplo as repercussões de sua vida como prostituta, a morte de seu pai e seu sequestro (orquestrado pelo marido de Victoria, seu antigo eu). Tantas mudanças  marcam a assimilação de corpo e mente de Bella, que chegaram a um ponto em comum, talvez até uma plenitude existencial. O ambiente ainda é surreal, mas muito mais “pé no chão”, e diferente de Frankenstein, Bella não é mais criatura, é criadora. 


Frankenstein e o pecado de sua própria existência


O conceito do que se é natural não se aplica aqui. Como pode andar sob a terra um ser que, mesmo com todas as características dos homens, não tenha para si nenhum vínculo, família, genes ou passado. Um verdadeiro amontoado de partes que não conversam entre si, uma existência única e, por esses mesmos motivos, é solitária e desesperada por calor humano, mesmo que não tenha dentro de si tal característica. 


O fim, começo e o meio - assim como nos é apresentada a história de 1818 - da história do “monstro” relaciona-se com sentimentos muito humanos e muito presentes na vida comum: senso de pertencimento, respostas sobre quem se é, amor, questões filosóficas e morais, etc. 


A aparência de Frankenstein é variável ao horror que cada um pode suportar imaginar, mas é sempre julgada e declarada imoral e inumana a partir do momento que a energia é injetada em seu corpo. Apesar de suas muitas qualidades - a personagem tem interesse por literatura, é compreensiva e empática, além de não representar mal a humanidade - sua mera presença faz mulheres desmaiarem e homens correrem atrás de suas armas. 


Assim como Bella Baxter, Frankenstein vive para entender que a crueldade é tão humana quanto o amor, e a ingenuidade muitas vezes pode ser sim uma benção. Mas ao passo que Baxter encontra um ponto de equilíbrio e satisfação - e reflete a sua aparência pura e usual aos padrões de beleza - a criatura de Shelley caminha para o lado oposto, e sua mente sucumbe aos horrores monstruosos de sua aparência.


Não se pode pensar que apenas um fator é determinante para que um tenha sucesso e outro um desastre. O meio influencia o indivíduo por diversas diretrizes, e não se ver condizente com esse ecossistema é o que faz Frankenstein colapsar, com muita razão. Além de não ter um ser feito a sua imagem (mesmo que tenha implorado uma noiva), a criatura abençoada de "filha de Satã" responde a maldade que vive com mais maldade, já que foi a única coisa que recebeu.


Bella sofre ao decorrer de toda a história, seja pela misoginia, por sua infantilização, sua ingenuidade, ou pela maldade dos outros. Porém, o amparo de pessoas que se importam com ela, combinado com sua destreza e convicção, a sustentam de modo que a personagem enfrente a vida, e não a tema. Com Frankenstein não ocorre o mesmo, e nem a literatura, a filosofia ou o amor são capazes de salvá-lo.


A vida plena é conquistada pela (pobre) criatura Bella, e repleta de erros e acertos, entende a humanidade (sua e generalizada). Isso pode nos fazer pensar em como a pobre criatura de fato, Frankenstein, poderia ter experienciado uma vida não necessariamente melhor, mas um pouco mais fácil.



Fonte bibliográfica


MODERNGURLZ, analyzing the outfits in poor things 🧠📚🎩. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ver7VjyQuP0


SHELLEY, Mary. Frankenstein. LaFonte, 2022, ed.



Comentários


© 2024 Living la dolce vita since 2001 . 

  • Instagram
  • email
  • LinkedIn
bottom of page