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Letterboxd e como o cinema, hm, encontra um meio

Atualizado: 30 de mar. de 2025




Parafraseando Jeff Goldblum em um de seus papeis de maior destaque, Dr. Ian Malcolm, em Jurassic Park (1993), “A vida, hm, encontra um meio.”. E seguindo esse mesmo pensamento, o cinema há de identificar diferentes formas de se adaptar as constantes mudanças que a indústria do entretenimento atravessa.



COVID-19


Em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi alertada sobre diversos casos de pneumonia na cidade de Wuhan, na província de Hubei, na República Popular da China. Dois meses depois, em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil confirmou a presença da pandemia de COVID-19 em seu território, e em 11 de março de 2020, a OMS decretou oficialmente o estado de pandemia devido ao coronavírus.


Essa pequena e traumática linha do tempo revela como, em poucos meses, a vida que conhecíamos já não seria possível, pelo menos por um tempo. Dentro de casa e protegendo-se, a solução para a solidão e medo era se entreter, seja ouvindo música, cozinhando, lendo, ou, como muitos, assistindo a filmes.



O ópio do povo. Mas será mesmo?



Para Fernando Mascarello, autor da obra História Mundial do Cinema, o cinema desde seu nascimento vive em estado de transformação constante.

[…] esse primeiro cinema testemunhou uma série de reorganizações sucessivas em sua produção, distribuição e exibição. […] A história do cinema faz parte de uma história mais ampla, que engloba não apenas a história das práticas de projeção de imagens, mas também a dos divertimentos populares, dos instrumentos óticos e das pesquisas com imagens fotográficas. Os filmes são uma continuação na tradição das projeções de lanterna mágica, nas quais, já desde o século XVII, um apresentador mostrava ao público imagens coloridas projetadas numa tela, através do foco de luz gerado pela chama de querosene, com acompanhamento de vozes, música e efeitos sonoros. (p. 17-18)

Além de termos um primeiro contato com as práticas de projeção de imagens, o autor deixa claro que a história do cinema está intrínseca a diversão popular. As tais máquinas que mostram fotografias em movimento carregavam a “característica de serem atrações autônomas, que se encaixavam facilmente nas mais diferentes programações desses teatros de variedades.” (Mascarello, 2014, p. 20).


Ou seja, não se pode falar separadamente do cinema sem que citemos seu público final: o povo. Com base nesse quadro geral de análise, a compreensão a respeito da história do cinema e como seu impacto para a humanidade é imensurável torna-se relativamente mais fácil. A verdade é que o desejo de discutir e compartilhar experiências é tão humano quanto respirar. De acordo com o poeta e religioso inglês, John Donne:


Nenhum homem é uma ilha isolada;

cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra;

se um torrão é arrastado para o mar,

a Europa fica diminuída,

como se fosse um promontório,

como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;

a morte de qualquer homem diminui-me,

porque sou parte do gênero humano.

E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;

eles dobram por ti.


Entende-se que o ser humano, seja que por desejo, necessidade, ou vontade, é sociável. Nosso Eu é um tecido composto pela epiderme dos Outros, e portanto, buscamos diferentes maneiras de nos conectarmos. Para Baumeister e Leary (1995),

A hipótese do pertencimento é a de que seres humanos tem um impulso penetrante de formar e manter ao menos uma quantidade mínima de duradouras e positivas relações interpessoais. Satisfazer essa vontade envolve dois critérios: Primeiro, existe uma necessidade de interações frequentes, efetivamente agradáveis para com poucas outras pessoas, e segundo, essas interações devem ocorrer em um contexto temporariamente estável e de estrutura durável de preocupação afetiva pelo bem-estar um do outro. (p. 497)

Em outras palavras, gente precisa de gente. E nada melhor do que uma atividade coletiva e extremamente sensorial para nos despertar dessa ânsia social. Mas passados 5 anos da pandemia, o contexto desse período ainda traz consigo mudanças substanciais no jeito que consumimos, interpretamos e analisamos as mídias.


Entre 2020 e 2021, cinemas foram de fato fechados ou operados com capacidade reduzida, enquanto os serviços de streaming experimentavam um aumento na popularidade. De acordo com a Forbes (2021)

Ainda não sabemos se o boom na migração para o streaming é definitivo ou simplesmente motivado pelo fechamento dos cinemas e a escassez de outras ofertas de entretenimento, como shows e peças de teatro. Mas Pedro Oliveira aponta que, nesse período, o brasileiro pôde perceber que a conta é mais vantajosa com streaming. “Hoje, no Brasil, a assinatura das plataformas gira em torno de R$ 30. Por ano, R$ 360 para ter acervo de filmes e séries para toda a família. Quanto uma família com quatro pessoas gasta no cinema? Uma única ida não sai por menos de R$ 150, com ingressos, alimentação e transporte. É um trade off para o consumidor que é muito óbvio colocando no papel.

E é nessa conjuntura que o Letterboxd prospera. A rede social para os amantes do cinema, de acordo com a própria, incentiva que o usuário “Acompanhe os filmes que você assistiu. Salve aqueles que você quer ver. Conte aos seus amigos o que é bom.”.


Adicione um filme. Publique sua crítica.


Martin Scorsese abençoando sua crítica. Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/8866530509918185/
Martin Scorsese abençoando sua crítica. Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/8866530509918185/

Mais do que ser apenas uma ferramenta para comentar e classificar filmes, o Letterboxd representa uma adaptação da própria experiência cinematográfica a esse cenário em constante mudança. Num primeiro momento, mostra-se como versão digital dos tradicionais diários de filmes, mas verifique novamente e perceba que funciona como um espaço importante de reflexão crítica ou cômica, troca de experiências sobre o cinema, e grandes possibilidades de viralização.


Uma vez que as formas tradicionais de consumo de cinema estão sendo desafiadas por novas formas de distribuição (streaming, aluguel digital, etc.), o Letterboxd é uma feliz opção para as pessoas que não só assistem a filmes de maneira mais individualizada, mas também gostam de compartilhar e trocar ideias sobre essas obras em tempo real, criando uma rede de recomendações e discussões mais orgânica.


É óbvio o fato de que o digital alterou a forma como o público consome conteúdo, e a popularização fatal do streaming integrou a crescente oferta de filmes a preços acessíveis, experiências não tão incomodas, e uma potente personalização. Logo, a redução da frequência de idas aos cinemas resultou em uma prática mais solitária e quieta.

Agora leve esses dois pontos em consideração:


  1. Como se adaptar a um público que está cada vez mais distante da experiência coletiva de assistir a um filme no cinema?

  2. Segundo Baumeister e Leary (1995, p. 500), “[…] pessoas precisam frequentemente de contatos pessoais ou interações com outras pessoas. […]”.


A resposta talvez esteja justamente na integração dos fatores “experiência coletiva” e “personalização”. Uma das grandes qualidades do Letterboxd é como a plataforma consegue manter, de certa forma, o aspecto de comunidade mesmo em um ambiente digital.


Os usuários podem se seguir, participar de debates, descobrir novos filmes, montar listas temáticas, ler artigos, e claro, socializar (mesmo que digitalmente). Isso traz uma nova forma de diálogo, em que a experiência de assistir a um filme não termina apenas no ato de consumir a obra, mas continua com a partilha de opiniões, resenhas e classificações, muito rapidamente. Nesse sentido, o Letterboxd encontra um meio termo entre o cinema tradicional (enquanto forma de arte coletiva) e o novo cenário digital.


Temporada de Premiação 2025 e o Fênomeno "Ainda Estou Aqui"


Partindo para uma análise macroambiental tanto dessa temporada de premiações quanto o cinema internacional e local, é interessante destacar como o filme “Ainda Estou Aqui” nos trouxe um senso de pertencimento e orgulho por ser quem somos, falarmos do jeito que falamos, e consumirmos nossa própria cultura. Como Fernanda Torres disse em entrevista ao jornalista Rodrigo Ortega,

O Brasil é uma ilha continental, a gente é isolado pela nossa língua […] Nós somos uma potência de 200 milhões de pessoas, nós somos um país complexo […] Engraçado, né, porque eu conheço a cultura francesa, eu conheço a cultura americana, eu conheço a cultura russa, a cultura alemã, a cultura italiana, mas eles não conhecem a cultura brasileira muito. E as vezes eu tenho pena de quem nunca leu Machado de Assis, de quem não conhece o Eça de Queiroz. E agora as pessoas descobriram a Clarice Lispector escrevem assombradas. Como é que eu posso falar com alguém que não sabe quem é Nelson Rodrigues […] Quando alguém fura a fronteira e leva algo que nos é pessoal pra fora […] é essa espécie de sentimento de orgulho nacional.

Com essa consideração em mente, sigamos a análise:


Político

Antigos governos brasileiros e suas políticas públicas para o cinema impactaram diretamente a produção e o financiamento de longas-metragens. Houve um corte significativo de verbas para a cultura, o que afetou diretamente o incentivo à produção cinematográfica. Agora, já passada toda a estratégia de marketing e campanha do Oscar do longa de Walter Salles, o questionamento que fica é: como podemos, a partir dessa estatueta, expandir nosso mercado audiovisual (tanto para consumo dos próprios brasileiros quanto do público externo)?


Econômico

No cenário econômico atual, o cinema brasileiro enfrenta uma grande disparidade entre as produções de grande orçamento ou as mais independentes. A diferença de preço entre um ingresso de cinema também reflete as desigualdades no acesso à cultura. Por exemplo, é notável a quantidade de público nas salas de cinema quando o valor é de R$40, em contraste com de quando esse valor é de R$10. O público, assim como escrito pelos compositores Marcelo Fromer, Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho, e Sergio De Britto Alvares Affonso, na música “Comida”


A gente não quer só comida

A gente quer comida, diversão e arte

A gente não quer só comida

A gente quer saída para qualquer parte

A gente não quer só comida

A gente quer bebida, diversão, balé

A gente não quer só comida

A gente quer a vida como a vida quer


O poder de compra da classe média e a classe trabalhadora no Brasil ainda é um fator limitante para o consumo de produtos culturais. O aumento do preço dos ingressos, somado à crise econômica, fez com que muitas pessoas deixassem de frequentar os cinemas, dificultando o acesso ao cinema (internacional e mais ainda o nacional, que já enfrentava uma distribuição limitada.) Os incentivos a fomentação desse espaço através de promoções de ingressos apenas confirmar o que já era claro: para consumir cultura precisa-se apenas de acesso.


Sociocultural

O cinema é uma ferramenta de manutenção de identidade, e desempenha um papel fundamental na construção da identidade cultural de uma nação. Ao assistir a filmes que refletem nossa realidade e costumes, nos sentimos conectados à nossa herança cultural e nos identificamos com as histórias e personagens apresentados na tela.


Entrevista ao Jornal Nacional sobre o prêmio Globo de Ouro de Fernando Torres como Melhor Atriz em Drama. DIsponível em: https://x.com/sigotheuspassos/status/1876426291156767203
Entrevista ao Jornal Nacional sobre o prêmio Globo de Ouro de Fernando Torres como Melhor Atriz em Drama. DIsponível em: https://x.com/sigotheuspassos/status/1876426291156767203


Além disso, a linguagem é um aspecto essencial da identidade cultural e o cinema é um veículo poderoso para sua preservação e disseminação. A forma como falamos, as expressões que usamos e as histórias que contamos são todos elementos que nos definem como povo. Por esses, e com certeza outros motivos, o filme "Ainda Estou Aqui" nos faz despertar o sentimento de patriotismo absoluto, e a necessidade de haver uma copa do mundo fora de época.


Afinal, quando nos veremos denovo no maior prêmio de cinema do mundo (mesmo que um tanto decadente), participando de conversas que não nos incluia, e portas que não nos são abertas.


Tecnológico

Muito antes da temporada de premiação e da polêmica de filmes como Emília Perez e O Brutalista - que usaram IA em suas produções -, o sindicato dos roteiristas de Hollywood entraram em greve, seguidos depois pelo sindicato dos atores, para enfrentar a maior greve do entretenimento americano desde 1960.


O motivo? Dentre diversas proclamações, o estabelecimento de regras para o uso de tecnologia de inteligência artificial em produções. Ao final, foi acordado que o consentimento é o alicerce para a questão. Agora, como uma ironia do destino, a IA parece ter se tornado irrelevante para os votantes de diversos prêmios mundiais. Retornando ao dois filmes citados no início, o longa francês Emília Perez utilizou-se da ferramenta para melhorar a qualidade vocal da atriz Karla Sofía Gascón, segundo o mixer de som do filme em Cannes.


Já em O Brutalista, o uso da inteligência artificial foi revelado em uma entrevista do editor do filme, Dávid Jancsó. A produção retocou os dialetos húngaros de Adrien Brody e Felicity Jones, além de criar desenhos arquitetônicos.


Legislativo

O filme "Ainda Estou Aqui" teve lançamento do dia 7 de Novembro de 2024, e dede então, levou 4,1 milhões de pessoas ao cinema e tornou-se a quinta maior bilheteria do cinema nacional, segundo a Secretaria de Comunicação Social. Três meses depois, no dia 24 de Fevereiro, o STF decidiu - após anos - repercurtir os mecanismos que possam dar andamento a processos criminais contra acusados de matar opositores a ditadura. Para a BBC Brasil


Quando um caso recebe repercussão geral significa que a decisão do STF valerá para todos os processos semelhantes em andamento no país. A Corte, no entanto, ainda vai julgar o mérito desses recursos — ou seja, decidir se a Lei da Anistia deve ou não ser revista. E não há previsão de data para isso por enquanto. Para juristas especialistas em Lei da Anistia ouvidos pela BBC News Brasil, a retomada do tema no STF foi impulsionada pelo filme.

Além da questão do filme brasileiro do ano, leis de incentivo a cultura sofrem constantes represálias, como é o caso da Lei Rouanet ou Lei Paulo Gustavo. Mas, por que essa história e por que agora? A verdade é que um povo não é nada sem sua expressão cultural, e a relevância do tema atualmente traz uma reflexão sobre a importância de resgatar a nossa história, nossa cultura e, principalmente, nossa capacidade de nos conectar como sociedade.


O agora é importante porque vivemos em um momento em que a cultura precisa ser afirmada, não apenas como forma de resistência, mas como forma de manter viva a nossa identidade e garantir que as futuras gerações continuem a se reconhecer nas histórias que contamos.

Quantas estrelas você acha que vale?


Imagem de própria autoria, 2025.
Imagem de própria autoria, 2025.

Ao todo, o Letterboxd serve como um termômetro para as tendências do cinema, já que muitas vezes as críticas e resenhas mais comentadas influenciam o público a dar mais atenção a determinados filmes. Isso torna a plataforma um importante indicador de gosto e popularidade em um momento em que a indústria cinematográfica enfrenta a fragmentação do público e da oferta de conteúdo.


Não obstante, é a prova de que há um público ávido por novas formas de interação, e a fomentação de uma nova cultura de cinefilia digital, onde a participação ativa do público reflete uma nova abordagem para o consumo cultural. Percebe-se que:


  1. É uma plataforma/rede social para aqueles que buscam não apenas consumir filmes, mas também compreender e interagir com as mudanças que a indústria está vivenciando.

  2. É um exemplo de como o cinema está se adaptando às mudanças constantes que a indústria vem enfrentando. Enquanto os cinemas lutam para atrair público e se reinventar, plataformas como o Letterboxd oferecem novas formas de engajamento e interação, mantendo o cinema vivo e relevante em um mundo digital.


Em conclusão, há de se ter um movimento forte o suficiente que consiga extinguir o cinema.


Referência Bibliográfica:


'A. Ainda Estou Aqui' ganha Oscar de Melhor Filme Internacional: a trajetória da produção que leva primeiro prêmio para o Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1w009x22ndo. Acesso em 7 de Março de 2025


BLUM, Renato Opice. O impacto da inteligência artificial nas greves de Hollywood. Disponível em: https://febrabantech.febraban.org.br/especialista/renato-opice-blum/o-impacto-da-inteligencia-artificial-nas-greves-de-hollywood. Acesso em 5 de Março de 2025


LAMMERS, Tim. Uso de IA pode prejudicar indicações de “Emilia Pérez” e “O Brutalista” ao Oscar? Entenda. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2025/01/uso-de-ia-pode-prejudicar-indicacoes-de-emilia-perez-e-o-brutalista-ao-oscar-entenda/. Acesso em 5 de Março de 2025


MASCARELLO, Fernando. História Mundial do Cinema. Campinas, SP: Editora Papirus, 2014.


SILVA, Rebeca. Um ano depois do início da pandemia, plataformas de streaming contabilizam ganhos. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-money/2021/03/um-ano-depois-do-inicio-da-pandemia-plataformas-de-streaming-contabilizam-ganhos/. Acesso em 5 de Março de 2025

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